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Santuários Sagrados Escondidos Que Poucos Turistas Conhecem

A maioria dos turistas que vai à Grécia não chega a Meteora. Quem vai à Tailândia passa por Bangkok e talvez Chiang Mai, mas raramente se aprofunda no norte.

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Existe uma diferença entre visitar um lugar sagrado e entrar num lugar sagrado.

A primeira experiência acontece com filas, guias de áudio, grupos de trinta pessoas e o celular levantado. A segunda exige que o lugar ainda tenha algo silêncio, escala, materialidade que force uma reação antes que você consiga interpretar o que está vendo.

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Os lugares desta lista foram escolhidos porque ainda permitem essa segunda experiência. Não são completamente desconhecidos alguns têm reconhecimento Unesco, outros aparecem em guias especializados. Mas ficam fora do roteiro óbvio.

A maioria dos turistas que vai à Grécia não chega a Meteora. Quem vai à Tailândia passa por Bangkok e talvez Chiang Mai, mas raramente se aprofunda no norte. Quem viaja para a África pensa no Quênia ou na África do Sul, não na Etiópia.

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É justamente aí que ficam alguns dos edifícios religiosos mais extraordinários do planeta.

Por que os lugares sagrados mais interessantes costumam ser os menos visitados

O turismo de massa tende a concentrar fluxo em pontos que já têm infraestrutura aeroportos, hotéis em cadeia, guias certificados, aplicativos de avaliação. Lugares que ficaram fora desse ciclo de investimento permanecem acessíveis apenas para quem planeja com mais cuidado.

Santuários Sagrados Escondidos

Isso cria uma assimetria curiosa: algumas das construções mais impressionantes da história humana recebem uma fração do número de visitantes que passam todos os dias pelo Vaticano ou pela Sagrada Família.

Não é questão de qualidade. É questão de acesso, de localização geográfica e, em alguns casos, de países que simplesmente não investiram em turismo por décadas.

O resultado é que quem chega a esses lugares muitas vezes fica sozinho com a arquitetura. Sem fila. Sem grupo organizado. Só o lugar e o que ele provoca.

Lalibela, Etiópia: igrejas esculpidas de dentro da rocha

Tem uma coisa que Lalibela faz que nenhum outro conjunto arquitetônico do mundo faz.

As igrejas não foram construídas sobre a rocha. Foram esculpidas dentro dela, de cima para baixo. Os construtores começavam pelo teto e iam descendo retirando pedra ao redor até que o espaço interno emergisse como se sempre tivesse estado ali, só esperando ser revelado.

São onze igrejas, divididas em dois grupos e ligadas por túneis e passagens subterrâneas. A mais impressionante é a Bete Giyorgis a Igreja de São Jorge um monólito em forma de cruz escavado doze metros abaixo do nível do solo.

Para chegar até ela, é preciso descer por um desfiladeiro estreito, feito à mão, que vai afunilando até virar túnel. Só aí, de repente, ela aparece.

O rei Lalibela ordenou a construção no século XII com um objetivo específico: criar uma nova Jerusalém para os cristãos etíopes, que não podiam mais peregrinar à Terra Santa com segurança.

O lugar ainda funciona como centro de peregrinação ativa. Um décimo da população da cidade é dedicado ao sacerdócio. Procissões, jejuns e cantos fazem parte do cotidiano não são encenações para turistas.

Lalibela está a 640 km ao norte de Adis Abeba, a 1.500 metros de altitude. O acesso não é simples. Mas quem chega costuma dizer que nenhuma outra experiência arquitetônica que teve antes faz sentido da mesma forma depois.

Meteora, Grécia: mosteiros pendurados no impossível

A Grécia do turismo de massa é a das ilhas Santorini, Mikonos, Rodes. Meteora fica no continente, na região da Tessália, a cerca de 350 quilômetros de Atenas. Não é um desvio pequeno.

O que justifica a viagem são seis mosteiros construídos no topo de pilares de arenito com até 600 metros de altura. Não ao redor das rochas. No topo delas.

Os primeiros monges começaram a se instalar ali no século XI, procurando isolamento e proteção durante a ocupação otomana. O acesso era feito exclusivamente por guindastes e redes escadas só foram construídas em 1920. Hoje, ainda vivem cerca de 50 freiras e 17 monges distribuídos entre os seis mosteiros que permanecem ativos.

O mais visitado é o Grande Meteoro, o maior e mais antigo do conjunto. Mas os viajantes que chegam no fim da tarde ao Mosteiro de São Nicolau menor, mais difícil de alcançar, com menos turistas costumam dizer que foi ali que a experiência de fato aconteceu.

O complexo é Patrimônio Mundial da Unesco desde 1988. Apareceu em um filme do James Bond. Mesmo assim, boa parte do Brasil nunca ouviu falar.

Capadócia, Turquia: igrejas no interior de chaminés de fadas

A Capadócia ficou conhecida pelos passeios de balão ao amanhecer imagens que dominam o Instagram há anos. Mas o que poucos turistas exploram com profundidade é o que existe dentro das formações rochosas.

O Museu ao Ar Livre de Göreme, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, reúne igrejas e mosteiros escavados na rocha vulcânica que compõe as famosas “chaminés de fadas” da região.

Algumas dessas estruturas datam do século IX e conservam afrescos bizantinos ainda com pigmento visível pinturas que sobreviveram a séculos de vento, umidade e negligência.

A lógica é parecida com a de Lalibela: os cristãos que viviam ali cavaram seus espaços sagrados em vez de construí-los, usando a pedra como abrigo e como parede. O resultado é uma série de ambientes que misturam a escala íntima de uma caverna com a grandiosidade de uma basílica.

Além do museu em Göreme, a região tem cidades subterrâneas inteiras como Derinkuyu, que desce oito andares abaixo da superfície onde comunidades cristãs se escondiam durante invasões. Algumas das capelas ainda têm a pedra que rolava para bloquear a entrada em caso de ataque.

O turismo na Capadócia cresceu muito na última década. Mas a maioria dos visitantes concentra o tempo no balão e no passeio de quadriciclo. As igrejas rupestres ficam para quem reserva um dia extra.

Chiang Rai, Tailândia: o Templo Branco que não é o que parece

O Wat Rong Khun o Templo Branco é uma das construções mais fotografadas da Tailândia. E ao mesmo tempo é um dos lugares mais mal compreendidos do circuito turístico asiático.

Ele não é um templo histórico. Foi concebido e construído por um único artista, Chalermchai Kositpipat, a partir de 1997, como obra de arte em andamento a previsão é que a construção dure até 2070.

O exterior todo branco, coberto de fragmentos de espelho que refletem a luz do sol, representa a pureza de Buda. A ponte que leva à entrada é ladeada por mãos que emergem do solo, representando o ciclo do sofrimento.

O interior é onde o lugar fica verdadeiramente estranho: as paredes são cobertas de murais que misturam iconografia budista com referências à cultura pop contemporânea as Torres Gêmeas em chamas, Michael Jackson, Batman, personagens de videogame. A fotografia é proibida lá dentro. É impossível preparar alguém para o que vai ver.

Na mesma cidade, o Wat Rong Suea Ten o Templo Azul foi construído por um discípulo de Kositpipat com uma estética radicalmente diferente: azul profundo, dourado, estátua branca de Buda no interior. Recebe bem menos visitantes que o Templo Branco e é considerado por muitos que foram aos dois o mais belo dos dois.

Chiang Rai fica a três horas de Chiang Mai, a cidade mais famosa do norte tailandês. É possível fazer a visita de ida e volta em um dia, mas a maioria dos roteiros de turismo não inclui a cidade no itinerário padrão.

O que considerar antes de visitar esses lugares

Cada um desses santuários tem regras de acesso e de conduta que precisam ser respeitadas, não apenas por educação, mas porque são espaços ativamente usados por comunidades religiosas reais.

  • Vestimenta: Em todos os casos, ombros e joelhos cobertos são exigência. Em muitos templos budistas, sapatos devem ser retirados antes da entrada. Nos mosteiros de Meteora, as freiras disponibilizam saias emprestadas para quem não está adequadamente vestido.
  • Fotografia: Regras variam por local. No interior do Templo Branco em Chiang Rai, fotografar é proibido. Nos mosteiros de Meteora, monges e monjas não podem ser fotografados. Em Lalibela, é necessário verificar as regras de cada igreja individualmente.
  • Horários de funcionamento: Mosteiros como os de Meteora fecham um dia por semana e têm horários restritos. Viajar sem confirmar o cronograma pode resultar em encontrar o lugar fechado.
  • Grupos e guias: Em Lalibela especialmente, contratar um guia local não é obrigação, mas faz diferença os túneis e corredores entre as igrejas são labirínticos e o contexto histórico muda completamente a experiência.
  • Época do ano: Lalibela atrai peregrinos em grande número durante o Natal copta (em janeiro, pelo calendário etíope) e a Páscoa. A experiência nesses períodos é intensa e diferente nem melhor nem pior, mas radicalmente outra.

Conclusão

Esses lugares não são segredos no sentido estrito da palavra. Constam em enciclopédias, têm verbetes na Wikipedia, alguns têm selos da Unesco. Mas ficam fora do caminho de quem viaja sem sair do roteiro óbvio e é por isso que ainda guardam algo que os destinos mais conhecidos perderam.

A decisão de chegar até eles exige um pouco mais de planejamento e, em alguns casos, uma disposição para aceitar que a viagem vai ser menos confortável do que o normal. O que se ganha em troca é difícil de colocar em palavras. Mas quem foi sabe do que se trata.