Tem uma coisa curiosa no carnaval brasileiro: a gente cresce achando que é a festa mais louca do mundo. E talvez seja mesmo. Mas não é a única.
Em fevereiro, enquanto o Sambódromo do Rio entra na madrugada com escola de samba em desfile, Veneza recebe turistas de sobretudo e máscara andando em silêncio pelas margens dos canais.
Em Trinidad, alguém está coberto de lama às três da manhã numa rua sem nome, dançando calipso. Em Londres mas em agosto, não em fevereiro mais de um milhão de pessoas tomam o bairro de Notting Hill com o som do Caribe.
São festas que nem sempre têm relação entre si. Algumas nasceram da religião. Outras, da resistência. Uma delas começou porque uma cidade boliviana quase desapareceu num terremoto e o povo precisava de um motivo para continuar.
O que elas têm em comum é menor do que parece. E é justamente por isso que vale conhecer cada uma delas pelo que é, não pelo que se imagina que seja.
O que o carnaval tem de mais antigo
A festa que conhecemos hoje não surgiu pronta. Foi sendo construída ao longo de séculos, com remendos de tradições que nem sempre conversavam entre si.

A ligação com a Quaresma os quarenta dias de jejum antes da Páscoa no calendário cristão é a mais conhecida. Carnaval como a última farra antes da abstinência. O nome, aliás, tem uma das etimologias mais debatidas da língua: pode vir do latim carne vale, algo como “adeus à carne”.
Mas antes disso tudo, muito antes, havia festas pagãs com a mesma lógica de inversão. Na Roma Antiga, as Saturnálias suspendiam temporariamente a hierarquia social — escravos podiam sentar à mesa com senhores. Na Grécia, os festivais em honra a Dionísio misturavam bebida, teatro e excesso.
A Igreja não eliminou esses rituais. Absorveu o que não conseguiu proibir e encaixou no calendário cristão o que já existia antes dele.
O resultado é uma festa de dupla natureza, que carrega ao mesmo tempo o peso da devoção e a leveza da permissividade. Essa tensão ainda está lá em Veneza, em Barranquilla, no Recife mesmo que poucos que estão na folia pensem nisso.
Brasil: o carnaval que não cabe num único lugar
Qualquer brasileiro que viajou pelo país sabe: o carnaval do Rio e o carnaval de Recife são praticamente festas diferentes.
No Rio, o Sambódromo é o centro de tudo. As escolas de samba passam meses preparando um enredo uma narrativa contada por meio de fantasias, alegorias, coreografias e o samba-enredo que a bateria empurra do começo ao fim.
É uma produção coletiva de escala absurda, e o julgamento técnico dos quesitos leva a competição a sério.
Em Salvador, a estrutura é outra. Os trios elétricos puxam multidões pelos circuitos que percorrem bairros inteiros. O axé, o pagode baiano e o samba reggae dominam. Não há Sambódromo, não há arquibancada há rua, calor e horas de dança.
Recife e Olinda funcionam diferente das duas. O frevo é um ritmo que pede agilidade e quase acrobacia os foliões carregam mini-sombrinhas coloridas enquanto os pés mal tocam o chão. O maracatu, mais grave e ancestral, vem das coroações de reis africanos no período colonial. Ainda hoje desce as ruas do centro histórico com alfaias, caboclos de lança e rainhas coroadas.
Fora desses três, há o carnaval de rua das capitais, que cresceu muito na última década. São Paulo tem blocos que reúnem centenas de milhares de pessoas. Belo Horizonte, Florianópolis, Fortaleza — cada uma com o próprio sotaque de festa.
Não existe um carnaval brasileiro. Existem vários, acontecendo ao mesmo tempo, em lugares que mal se comunicam entre si.
Veneza: quando a máscara era política
O carnaval de Veneza tem algo que o distingue de quase todos os outros: ele é silencioso.
Não há bateria. Não há trio elétrico. As pessoas se movem pelas ruelas estreitas com fantasias renascentistas e máscaras que cobrem parte ou todo o rosto, e a cidade funciona como um cenário que não precisou ser construído já estava lá.
A festa tem raízes que remontam ao século XII. Por séculos, as máscaras cumpriram uma função que hoje parece estranha: apagar temporariamente as diferenças de classe. Com o rosto coberto, um nobre e um comerciante circulavam pelo mesmo espaço sem que a hierarquia fosse visível. Era a única época do ano em que isso era socialmente tolerado.
Cada máscara tem nome e história. A bauta cobre o rosto inteiro e tem um formato que permite comer e beber sem removê-la prática. A colombina cobre só metade do rosto. A moretta, redonda e negra, era segurada pelas mulheres com os dentes, o que as impedia de falar.
No fim do século XVIII, com a queda da República de Veneza e a ocupação austríaca, o carnaval foi proibido. Ficou suspenso por quase dois séculos. Voltou nos anos 1980 por iniciativa do poder público, que queria reviver a tradição como atrativo cultural.
Funcionou. Hoje, nos dois finais de semana do carnaval veneziano, dezenas de milhares de visitantes chegam para os bailes nos palácios históricos, para os concursos de máscara nas praças e para o chamado “voo do anjo” na Piazza San Marco.
O frio de fevereiro não afasta ninguém. Nesse caso, faz parte do clima no sentido literal e no figurado.
Barranquilla, Trinidad e Notting Hill
Esses três carnavais têm algo em comum que o de Veneza não tem: cada um deles carrega, de alguma forma, uma história de opressão e resposta a ela.
O Carnaval de Barranquilla é patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco. Acontece no mesmo período do brasileiro, na costa caribenha da Colômbia, e mistura tradições indígenas, africanas e europeias numa festa que durou séculos para tomar a forma atual.
A cumbia é o ritmo mais reconhecível, mas há dezenas de danças tradicionais espalhadas pelos desfiles. Uma das tradições mais curiosas é o enterro de Joselito um personagem fictício que é simbolicamente enterrado na terça-feira de carnaval para marcar o fim da festa. É luto encenado. É também humor.
Em Trinidad e Tobago, o carnaval começa antes do sol nascer. O J’ouvert é o ritual de abertura: na madrugada da segunda-feira, participantes descem às ruas cobertos de tinta, lama e óleo. É propositalmente caótico. Tem raízes na resistência dos escravizados, que usavam a festa para subverter, dentro do que era possível, a ordem que lhes era imposta.
O calipso e o soca embalam o resto dos dias. As fantasias penas, miçangas, glitter levam meses para ser confeccionadas e são julgadas com seriedade.
O Carnaval de Notting Hill tem a origem mais documentada das três. Nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, imigrantes afro-caribenhos em Londres sofriam discriminação racial intensa e sistemática. Em 1960, a ativista Claudia Jones organizou uma festa como forma de protesto e afirmação cultural.
O que começou como manifestação política se transformou num dos maiores eventos de rua da Europa. Mais de um milhão de pessoas passam pelo bairro de Notting Hill todo agosto. A influência brasileira está lá a London School of Samba participa desde os anos 1980.
Outros que valem ser conhecidos
O mundo tem mais carnavais do que a maioria imagina, e alguns guardam tradições que não existem em nenhum outro lugar.
Em Nova Orleans, o Mardi Gras existe desde o início do século XVIII, trazido pelos colonizadores franceses. Os desfiles são organizados por Krewes — associações privadas com histórico, regras e alegorias próprias. A tradição de jogar colares de contas coloridas para a multidão é uma das mais reconhecíveis. O jazz dá o fundo sonoro, e o French Quarter concentra o lado mais intenso da festa.
Na Bolívia, o Carnaval de Oruro combina ritual indígena com devoção católica de uma forma que não existe em nenhum outro lugar. Também é patrimônio Unesco. As danças folclóricas têm significados específicos ligados à cosmologia andina não são só apresentações, são cerimônias.
Na Bélgica, o Carnaval de Binche tem os Gilles personagens que vestem chapéus de penas com até 300 penas cada e jogam laranjas na multidão como gesto de boa sorte. Só participantes oficiais podem usar a fantasia. A tradição tem séculos e é levada com uma seriedade que contrasta com o visual extravagante.
No Uruguai, o carnaval reivindica ser o mais longo do mundo, com eventos que se estendem por semanas. Em Portugal, Torres Vedras ficou famosa pelos carros alegóricos satíricos crítica social com humor, no melhor estilo do carnaval ibérico. Em Goa, na Índia, a influência colonial portuguesa deixou um carnaval que sobreviveu décadas após a independência e ainda acontece nas ruas da capital Panaji.
Conclusão
Conhecer outros carnavais não diminui o brasileiro. Pelo contrário coloca em perspectiva o que foi construído aqui ao longo de séculos de mistura cultural.
O que fica, no fim, é a percepção de que a necessidade de parar e festejar coletivamente não é exclusividade de nenhum povo. Mas a forma como cada um faz isso diz muito sobre quem é, de onde veio e o que escolheu não esquecer.







